Padre Figueiredo                                                                                                                Marquês de Pombal

O VINHO DA CHAVE DOURADA

 

A Chave Dourada é um vinho generoso ou espirituoso com características peculiares que se produz apenas na região de Mação, no Distrito de Santarém. E tempos houve em que este vinho era um dos grandes embaixadores desta terra.

Já do sec. XVIII nos chegam registos de que era um vinho bem conhecido da Arcádia Lusitana, fundada em 1756, cantado por diversos Poetas como Filinto Elysio e Curvo Semedo, sendo no entanto o Poeta António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799), o famoso Elpino Nonacriense, que viria a imortalizar este vinho especial no Dithirambo VIII (recitado a 31 de Maio de 1759) dedicado à Condessa de Oeiras, esposa de Marquês de Pombal, com o seguinte poema:

 

“Não quero Borgonha;

Não quero Champanha;

Não quero Tockai;

Nem vinho do Cabo;

Os vinhos estranhos

Não provo; não gabo.

Quero vinho q’ alegre, que aquente; 

Dá-me d’esse, que goarda na cuba,

Doce çumo Mação excellente,

Camarista estimado e valído

De Evio Lysio na Casa enramada,

Por isso chamado

Da chave dourada.

Este pois, oh formosa Condessa,

Glória e timbre de Oeiras Formosa,

Te brindo e consagro.

Viva a grande Condessa, viva, viva.”

 

Sabe-se assim por este poema que o vinho chegava a Oeiras em Cubas (pipos) e que era um vinho doce, “Dá-me d’esse, que goarda na cuba,/ Doce çumo Mação excellente”, seguindo-se em seguida um verso que tanta confusão fez em muitos autores e que deram uma ideia errada da origem do nome Chave Dourada, confundindo Camarista, “Camarista estimado e valído”, com algo que estava ou pertencia à Câmara Municipal, pressupostamente um pipo fechado com uma chave dourada (provavelmente numa referência confusa aos impostos pagos em vinho, tal como em azeite, e cujos pipos estariam em armazém da Câmara e que foram desbaratados pelos franceses durante uma das invasões). Ora, segundo Morais da Silva, no seu Novo Dicionário Compacto de Língua Portuguesa, Camarista é uma pessoa nobre que serve na Câmara do Rei e com ele privando. Temos assim duas hipóteses de interpretação: uma que elogia o vinho como nobre ao serviço do rei, estimado e valído (favorito) e outra como fazendo referência a um Camarista específico de D. José I, nomeado Interprete Mor, membro da real mesa censória e grande apoiante do Regalismo Pombalino, defendendo afincadamente a separação de poderes entre Igreja e Estado. Estamos a falar do ilustríssimo Teólogo e Latinista, natural de Mação, Padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797). A sua amizade com o Marquês de Pombal era proverbial, sendo por ele elogiado da seguinte forma: “O Padre Figueiredo é um poço de sabedoria sem fundo e sem lama”.

Três versos já na parte final “De Evio Lysio na Casa enramada,/ Por isso chamado / Da chave dourada.” chamam-nos a atenção para a utilização de termos gregos muito em uso na época, Evio (que se festeja com gritos de Evoé, os gritos das bacantes, sacerdotisas de Baco, o Deus do vinho)  e Lysio (Paraiso) ligados ao enigma da “Casa enramada” que segundo a iconografia cristã não é mais do que a genealogia de Cristo representada na Árvore de Jessé (da qual existe um dos mais belos exemplares na Igreja Matriz de Mação), ou seja a Igreja. O que porventura poderá querer dizer que era produzido pela Igreja ou em terras da Igreja, e que por isso dava pelo nome de Chave Dourada, figura recorrente nos seus brasões, principalmente no do Papa, onde se cruzam uma dourada com uma em prata, como alusão às chaves de S. Pedro, o primeiro Papa. Ou seja, o nome do vinho é Chave Dourada porque provém de terras da Igreja/Diocese ou de alguém a ela ligado. Provavelmente era o próprio Padre Figueiredo, nas suas idas e vindas entre Mação e Lisboa, que oferecia ou comercializava o vinho no seio da Corte, quer como representante da igreja, quer a título particular.

Foi, também, noticiado na Revista Municipal de Lisboa - no segundo trimestre de 1983, em artigo assinado por Fernanda Castelo-Branco com o título de VINHOS NA INAUGURAÇAO DA ESTÁTUA EQUESTRE DE D. JOSÉ I - que a inauguração da estátua equestre de D. José deu origem a grandes festividades. Das maiores entre todas a que o nosso Pais tem assistido. Entre essa numerosa produção, inclui-se folha avulsa, com o título de "Listas dos Vinhos, e Licores, que servirão na cea, que o Senado deo na primeira noute, em que se festejou a collocação da Estatua Equestre", provavelmente impressa para ser distribuída no decorrer do acontecimento a que se reporta: a ceia, integrada nas festividades inaugurais, oferecida pela Câmara de Lisboa. Eram muitos os vinhos Nacionais e Internacionais, sendo que quanto aos vinhos nacionais do território metropolitano, foram servidos os seguintes, sob a indicação genérica de Vinhos do Termo de Lisboa:

Carcavelos,

Lavradio tinto,

Lavradio branco,

Barra barra de uva marota,

Barra barra doce,

De Setúbal Moscatel,

Da Golegã,

Da Chave Dourada...

Actualmente o Vinho da Chave Dourada apesar de ainda ter uma produção reduzida - não tão reduzida como há uns anos atrás em que a prova deste “Doce çumo Mação excellente” era apenas possível por convite de um dos raríssimos mini produtores - já apresenta sinais de revitalização da produção, tendo já entrado no quotidiano do mercado regional do Concelho de Mação, através de vários produtores com uma produção mais significativa.

Repensar a produção em escala comercial mais ampliada poderá ser um factor de desenvolvimento local, tanto a nível económico, como turístico e cultural.

É nesse sentido que surge, em 2015, a Confraria do Vinho da Chave Dourada, com o objetivo de desenvolver e divulgar esse vinho peculiar, criando uma marca notoriamente cultural, com a organização, entre outras atividades, de eventos culturais regionais como as noites de Fado, nacionais como o Mação TT - Tasca Tur (uma viagem pelo património material e imaterial do Concelho) que já vai na 3.ª edição e internacionais como o FICA - Festival Internacional de Cinema Arte de Mação que apresenta este ano a sua 2.ª edição durante a Feira Mostra.

Assim, a Confraria além de prestar serviços aos produtores do Vinho da Chave Dourada, contribuindo para o seu desenvolvimento e competitividade, também tem como objetivo desenvolver outras atividades de natureza educativa e formativa, recreativa, cultural, de animação urbana, turística ou desportiva, que visem a promoção do Conselho de Mação, o bem-estar e a qualidade de vida dos cidadãos autóctones e estabelecidos, a cidadania e desenvolvimento local, não esquecendo a preservação, promoção e divulgação das artes, artesanato e cultura popular do concelho.

As Caves Cardoso juntou-se com entusiasmo, logo de início, a este projeto, sendo uma das adegas fundadoras da confraria.

Atualmente está a ser feito um investimento significativo na produção do Vinho da Chave Dourada, nas Caves Cardoso, de forma a aumentar a produção a uma escala comercial, conjuntamente com os produtores já existentes ou novos produtores que venham a existir.